The Dream is True…

ironvert Como explicar, em poucas linhas, 21 anos de tesão reprimido? Quando eu tinha 13 anos, em 1.988, o Iron Maiden estava no ápice. O álbum Seventh Son of a Seventh Son havia sido lançado, e o grupo já estava consagrado no topo das bandas de heavy metal mundial. Foi então que eu os descobri, e foi amor à primeira audição.

Os riffs, os solos, as levadas de bateria, a voz incomparável do Bruce, as letras, tudo extremamente coeso e bem feito. Com uma energia fora do comum, alucinadamente inexplicável.

Bem, de 88 pra cá, muita coisa mudou. Mas meu amor pela Donzela de Ferro nunca arrefeceu. E eis que chegara enfim, minha oportunidade de vê-los ao vivo. Eis que chegara Brasília, 20 de março de 2009.

O Maurício Ângelo descreveu com muita propriedade o que o show significava para mim e para todos, no Revista Movin Up. Iron Maiden é religião, é fé, é amor, pulsação e ritmo. Não dá pra ser descrito em palavras, dá para se viver, e olha lá.

A experiência do show, em si, foi única para mim, por inúmeros motivos. Nunca fui a um show do Iron justamente por questões financeiras. Eu não era humilde, era pobre, mesmo. Faltava a condição, a verba, para eu sair de Araguari para qualquer coisa desse tipo. Como também, desde cedo, assumi responsabilidades financeiras na casa, esse tipo de gasto era considerado heresia, até. Mesmo um gasto com “a fé”.

E eis que desta vez, consigo ir no show mais caro que teve nessa turnê (sim, em Brasília o ingresso foi duas vezes mais caro que em São Paulo). E viajei de Boeing pra Brasília! As coisas mudaram, e mudaram para muito melhor.

A maratona para ver o Maiden começou bem antes, planejando tudo com o Bruno (eu em Cuiabá, ele em Uberlândia – esquemas, o que fazer, como fazer, onde ficar, quem paga o quê), e toda a parafernália logística que precisa ser observada para tal empreitada. Até então, tudo corria extremamente bem. Meu patrão me liberou por cinco dias, a verba estava no banco, tudo certo para a viagem.

E no dia 28 de março minha casa foi assaltada. Nada como a violência urbana para jogar um balde de água fria em qualquer sonho, em qualquer esperança, em nossas vidas. E como se não bastasse o problema da violência urbana, ainda surgem problemas piores, advindos disso. Roupas-sujas que aparecem para serem lavadas bem nessa hora, e pessoas sem nenhum respeito pela dignidade, nem pelo momento alheio. Pelo menos, a experiência serviu para deixar bem claro certas coisas que ainda estavam ocultas, disfarçadas de bons sentimentos, ou de simples manias.

Mas, com assalto ou sem assalto, com cabeça quente ou não, eu embarquei em um Boeing no final da tarde do dia 19. Parti sozinho, devido às circunstâncias e ao horário. Sozinho, encarei meu sonho e embarquei. Cheguei em Brasília, e já botei o André, a Cibele e o Bruno metidos em uma “Quest for Yuri”. Devemos ter passado uns pelos outros umas 19 vezes, sem nos ver. Coisa de geek emocionado.

Foi naquele momento, que vi a Cibele correndo na minha direção, que percebi o quanto sentia falta dos meus velhos amigos. De quem me conhece realmente há muito tempo. Ali, naquele pedaço de terra cinzento, há quilômetros de distância, estava uma parte de minha história. O sopro da minha presença está lá, no coração de meus amigos. Isso me deu a energia que precisava para os próximos dias.

A agenda foi lotada e apertada. Sei que desapontamos alguns amigos que estavam por lá e queriam nos ver (e aqui expresso publicamente minhas desculpas para a Ariquel e para a Dragonesa), mas o sonho, e o pós-sonho, falaram com intensidade maior.

Chegamos no estádio lá pelas duas da tarde. Trocamos o voucher pelo ingresso, pegamos a fila errada, ri bastante dos “nativos” reclamando do calor (estava muito fresco, comparado com os padrões cuiabanos, tanto que fiquei de camiseta preta sob o sol sem nem suar), fomos para a fila correta, observamos nuvens negras fazerem curva e irem pra longe do estádio, confraternizamos com a turma da fila (composta por dentistas, técnicos de manutenção em aviões, universitários, e outros seres perdidos em outros pontos além do nosso alcance).

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Os portões foram abertos às 17:00, uma hora depois do horário previsto. Pegamos uma ótima localização, e passamos a tarde ouvindo o bom e velho hard, rock, e metal que vinha dos auto-falantes. Às 20:00 horas iniciou o show de Lauren Harris, filha do chefão Steve. Foi uma apresentação ok, não chegou a ser ruim. Na verdade, ela faz um rock adolescente básico, que os adolescentes atuais devem gostar. Quando eu era adolescente, eu gostava desse tipo de som. Vale reforçar o que já foi dito. A moça esbanja simpatia, e nem se importou com os gritos de “Maiden! Maiden!” ou “Evanescence! Evanescence!” que partiam da platéia a cada intervalo. 😛

Britanicamente às 21:00, as luzes começam a brilhar, o discurso de Winston Churchill começa a ser ouvido, e toda a razão, toda a lógica, tudo o mais se perde. O sentimento e a emoção são sentidos em cada poro, em cada terminação nervosa, em cada centímetro de pele, pêlo, ossos, carne e sangue.

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Parafraseando o já citado Maurício Ângelo: as canções já estão gravadas no nosso inconsciente, pois ouvir cada uma delas é reviver cada bom momento em que elas estavam presentes. A performance dos caras no palco é indescritível. A energia e empolgação do Bruce, a força das três guitarras, a batida insana do Nicko, os graves potentes que saem do instrumento do Steve, tudo se soma, tudo se junta à força e à empolgação que emanam do público. É um êxtase, uma catarse, um orgasmo de duas horas.

O set list em si foi perfeito. Ouvir músicas que eu sei que jamais ouvirei novamente ao vivo (sim, eles voltam em 2.011 – e eu também), como The Rime of the Anciente Mariner, foi de arrancar lágrimas.

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Bruce, como o excelente frontman que é, interagiu conosco o tempo inteiro. Resolveu brigas, brincou com o pessoal, observou extasiado quando o pessoal da arquibancada fez o estádio tremer, batendo os pés, nos deu sua energia e sua empatia, e recebeu a nossa de volta. Janick fez seus malabarimos com a guitarra, e tocou como nunca. Adrian e Dave demonstraram que possuem realmente um vínculo telepático, o timing dos dois veteranos é perfeito. A energia que esses “senhores”, que essas lendas esbanjaram no palco, faz qualquer um perceber que eles estão ali porque gostam, porque amam tudo isso.

Como todo sonho, esse também terminou. Com a certeza de que parte do show estará do DVD da turnê (esse eu compro antecipado), e que eles retornarão com as novas músicas, do novo cd que será gravado, em 2.011.

As luzes se apagaram. A banda se despedira. Voltamos à realidade, com os corpos doídos e a voz desaparecida. Passamos uma madrugada acordados, dormimos o sábado inteiro, ou quase inteiro, e no domingo, retornamos às nossas rotinas.

Enfim, eu retornara. E posso dizer com certeza, que fiz parte da história do mundo, em 20/03/2009. Tenho algo para carregar por toda a minha vida, e que foi visto nessa data.

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E posso afirmar agora, com toda certeza:

”Oh well, whatever, whatever you are, Iron Maidens gonna get you, no matter how far”

Up the Irons!

Setlist:

– Intro (Playback: Doctor, Doctor / Transylvania / Winston Churchill’s speech)
– Aces High (Powerslave, 1984)
– Wrathchild (Killers, 1981)
– 2 Minutes To Midnight (Powerslave, 1984)
– Children Of The Damned (The Number Of The Beast, 1982)
– Phantom Of The Opera (Iron Maiden, 1980)
– The Trooper (Piece Of Mind, 1983)
– Wasted Years (Somewhere In Time, 1986)
– The Rime Of The Ancient Mariner (Powerslave, 1984)
– Powerslave (Powerslave, 1984)
– Run To The Hills (The Number Of The Beast, 1982)
– Fear Of The Dark (Fear Of The Dark, 1992)
– Hallowed Be Thy Name (The Number Of The Beast, 1982)
– Iron Maiden (Iron Maiden, 1980)

Bis:

– The Number Of The Beast (The Number Of The Beast, 1982)
– The Evil That Men Do (Seventh Son Of A Seventh Son, 1988)
– Sanctuary (Iron Maiden, 1980)

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Publicado por: Yuri Peixoto

Mineiro, RPGista, headbanguer, casado, pai de família e amante de gatos, Yuri é um louco apaixonado pelo que faz. Atualmente reside em Cuiabá, com sua família, e sua coleção de CDs e livros.

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